Casais relatam suas experiências profundas com o amor

Eles enfrentaram rejeição, obstáculos e preconceito, mas, finalmente, conseguiram estar ao lado de quem se ama

O primeiro encontro aconteceu depois de muitos convites recusados por ela. Carla Cleto
O primeiro encontro aconteceu depois de muitos convites recusados por ela. Carla Cleto

Embora o cinema, a literatura e as canções românticas  mostrem expectativas irreais sobre o amor, a vida real, porém,  releva que os relacionamentos podem ser tecidos ou desmanchados com igual facilidade. Mas não há necessidade de sentir-se desapontado, porque a vida nos presenteia com exemplos de que o amor verdadeiro existe. E é possível.

Acreditar no amor é forçar o amor

Apesar de se conhecerem desde os tempos de farra da faculdade, quando ainda cursavam administração, raramente a palavra “amor” e tudo que tal termo sugeria ficavam explícitos para o empresário Lucas Lisboa, 26, e para a gerente Anne Costa, 25. Timidez, quem sabe. Mas nada melhor do que a sala de bate-papo do famoso e eterno MSN Messenger para quebrar o gelo de ambos.

Ele, à época, não podia ver a janelinha subir, que já puxava conversação, a fim de abrir o caminho do conhecimento e da aproximação, com ideias e palavras não expressas pessoalmente.

E, Anne, por sua vez, não queria saber de intenções compartilhadas, tampouco entusiasmos em comum. “Eu costumava achar o comportamento dele inconveniente, repetitivo e irritante”, disse, aos risos, lembrando de algumas situações.

O primeiro encontro aconteceu depois de muitos convites recusados por ela. O toque dos lábios foi selado no escurinho do cinema, numa mistura perfeita em meio a entretenimento, arte e efeitos sonoros e visuais.

Após alguns meses, veio o jantar. À mesa, dois seres humanos dominados pela força de um sentimento sublime, falando sobre suas vidas, compartilhando pensamentos e dubiedades, dando risada dos seus próprios erros e acertos. Descobrindo afinidades várias.

Nesses quase cinco anos de relacionamento, o casal aprendeu lições muito importantes sobre palavras de afirmação e linguagens de amor. Mas, acima de tudo, eles valorizam e respeitam a si mesmos. Têm conhecimento de quem são ou, pelo menos, de quem estão se esforçando para se tornar.

“Quaisquer que sejam as circunstâncias, é preciso ser leve e olhar os caminhos da vida com mais positividade, mesmo sabendo que algo pode dar errado durante o percurso”, disse, e acrescentou, baixinho: “E, sem dúvida, tudo isso eu aprendi com ele.”

Os dois se entreolharam com expressão de ternura. Lucas abraçou-a, apoiando as mãos nas costas dela, e soltou: “Eu gostava de aproveitar a vida sem limites, sem freios, sem contorno; porém, ela conseguiu me transformar. Comecei a traçar e atingir objetivos em minha vida após conhecê-la”, contou ele.

Embora não exista receita pronta para um relacionamento duradouro, o casal acredita que os ingredientes que temperam o amor são baseados na tríade – cumplicidade, diálogo e confiança. Eles costumam bater um papo tranquilo, riem e fazem brincadeiras um com o outro, do jeito que só acontece quando a gente se sente à vontade com alguém. Falam sobre trabalho, viagens, livros, músicas e família.

Anne não se considera uma mulher romântica tanto quanto Lucas, que é adepto de mergulhos profundos no coração, e na alma, sendo capaz de fazer loucuras por amor. No início deste ano, ele a surpreendeu com um pedido de noivado em frente ao Castelo da Cinderela, situado no Magic Kingdom, no Walt Disney World Resort, sul do estado da Flórida. Um cenário perfeito para um conto de fadas da vida real.

Emocionada, ela disse em alto e bom som quanto o amava, com direito a “sim”, risos e lágrimas. Em meio à multidão, compartilharam entusiasmo, reconhecimento e, acima de tudo, vontades. “Senti uma onda de emoções que mal cabia dentro do meu peito. Chego à conclusão, por mais simplista e ingênua que possa ser, de que eu realmente acredito que sentimentos verdadeiros existem. Estou muito feliz e realizada. Quero crescer e evoluir ao lado dele para que possamos construir juntos uma linda história de amor”, sonha, determinada.

Amor é contundência implacável

Uma história de amor que iniciou há 70 anos. Assim é a trajetória de vida de dona Honorata Maria Ferreira, 85, e seu Manuel Angelo Ferreira, 91 anos. O casal se conheceu nas plantações de cana-de-açúcar, em Correntes, município do estado de Pernambuco.

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Bom de papo e delicado com as palavras, seu Manuel tem um jeito cativante e simpático de ser. Embora tenha dificuldades na visão, a memória privilegiada faz com que ele relembre alguns fatos do seu tempo com uma riqueza de detalhes impressionante. Apesar disso, sua modéstia é uma convicção.

Desde muito cedo trabalhou como agricultor para ajudar no sustento de casa. Das mãos calejadas da plantação de mandioca, feijão e milho, ele semeou o chão, enxugou lágrimas, matou a própria fome e realizou alguns sonhos de quando ainda era menino. As mesmas que, também, compraram uma “camisa branca, calça, gravata e sapatos” que ajudaram a pedir a mulher de sua vida em casamento; e auxiliam, até hoje, no tratamento dela contra as doenças de Parkinson e Alzheimer.

Ainda durante o início do namoro, o casal precisou enfrentar a não aceitação de algumas pessoas. “Tiveram vizinhos que chegaram a dizer para o pai dela que eu não possuía virtude, integridade e gestos nobres”, rememorou, dando um pequeno suspiro.

O amor que se fortaleceu na história do casal ajudou a superar problemas e dificuldades. “Houve um tempo em que a gente teve que dividir dois ovos para quatros pessoas numa única refeição”, revelou ele. Da união foram gerados 12 filhos, 23 netos e 19 bisnetos, que hoje formam uma linda família.

O respeito e a liberdade são palavras-chave para relação duradoura do casal. Para dona Honorata, o senso de compreensão, o bom humor e a generosidade, estão entre as características que ela mais admira no marido. “Quando um dos filhos está com algum problema, ele é a primeira pessoa a encontrar soluções”, disse ela, orgulhosa. Já para ele, a docilidade, a segurança e a virtuosidade da mulher são aspectos que o mantém com brilho nos olhos e garantem a felicidade conjugal.

Um compromisso selado e vivido no amor. Ao lado da família, o casal segue firme. Rumo a cumprir o juramento feito – o de viver sempre juntos.

Amor não é caminhar na chuva, é ser sorteado pelo relâmpago

Eles já se conheciam pela internet, através das redes sociais, e não pararam mais de se falar desde o primeiro dia em que trocaram palavras e curtidas em posts. À época, o gestor hospitalar Israel Evangelista, 26, morava em Brasília, e o estudante de direito Paulo Luiz Fernandes, 25, em Maceió.

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Nunca haviam se encontrado pessoalmente antes e, quando isso aconteceu, o reconhecimento mútuo, o amor e o carinho que sentiam um pelo outro foram visíveis. O casal se conheceu nas festas juninas de Arapiraca, município no interior do estado de Alagoas. Marcaram de se encontrar às 22 horas. Mas só às 2h30 da manhã, Israel finalmente apareceu, mais tímido do que extrovertido.

Não foi preciso Paulo recorrer ao protetor da vida amorosa de muita gente, o pobre Santo Antônio, provavelmente acostumado a ficar mais de ponta-cabeça do que em pé. “Peguei na mão dele e fui ao encontro dos meus amigos, e logo o apresentei como o ‘meu namorado’’, porque sabia que era a pessoa certa”’, descreveu ele, aos risos.

Na praia, vendo o pôr do sol, o pedido de namoro aconteceu. “Sabia que ele era especial desde o primeiro momento que o conheci. Mas por ser tímido, esperei alguma iniciativa da parte dele. Quando fui pedido em namoro, fiquei confuso, com medo de toda aquela situação, já que moramos distantes. Uma semana depois, quando fui visitá-lo, disse o ‘sim’”, contou.

Para o casal, o amor é o grande combustível que dá forças para superarem qualquer dificuldade em relação à distância. Paulo mora em Palmeira dos Índios; Israel, no Pontal do Peba, em Piaçabuçu. Como viajam de transporte coletivo, o percurso dura em média cinco horas. “A gente se vê a cada 15 dias, e acreditamos que se não fosse o sentimento que temos uma pelo outro, não conseguiríamos aguentar muitas situações do nosso dia a dia”, relataram.

Ao longo desse tempo, incontáveis momentos marcaram o relacionamento. O mais importante, e especial, foi quando as famílias do casal se conheceram. Apesar de ter sido uma situação complicada, a sabedoria de agir com calma e companheirismo trouxe delicadeza para a ocasião. E como toda história baseada no amor tem um final feliz, eles transpiram felicidade plena e absoluta.

Segundo eles, as dificuldades e momentos cruciais no relacionamento foram fundamentais para manter acesa a chama do amor. “Já fomos dormir sem dar boa noite, mas porque o Paulo é cabeça dura, e não gosta de conversar quando está irritado. Prefiro resolver tudo na mesma hora. Se fosse por ele, viraríamos a página sem diálogo”, salientou.

Para Israel, o namorado trouxe um novo modo de pensar, novos lugares para conhecer e o fez descobrir que podia ser muito melhor do que imaginava. “De fato, o Paulo me deu um novo horizonte. Depois que eu o conheci, tive vontade de sair da depressão. Posso garantir que sou uma pessoa bem melhor hoje em dia; vejo as coisas com outros olhos, e o Paulo tem uma grande porcentagem em cima disso. Por isso que eu o amo tanto”, declarou-se com gratidão.

Entre as virtudes aprendidas com Israel, Paulo destaca a paciência e o companheirismo.  “Ele me ensinou a ser mais paciente, já que eu tenho um pavio curto. Ignoro muita coisa, porque não há necessidade de brigar por tudo. Também aprendi a ser mais companheiro; não só nos momentos bons, mas, principalmente, nos ruins, porque são neles, inclusive, que as maiores riquezas são geradas.”

Marcel Vital – Agência Alagoas