Cresce um novo sentimento político no Brasil: o Morismo

1d4aaa123feecfc385807f3c37c146b3

A impressão que tenho, depois das últimas manifestações de rua, no domingo (4), a favor das 10 medidas contra a corrupção do Ministério Público, é que já nasceu, ou vai tomando forma, um novo movimento político no Brasil: o Morismo. Sua figura síntese, claro, é o juiz Sérgio Moro.

O programa deste movimento poderia se resumir a um único item: o fim da corrupção no Brasil.

É o fim da corrupção que nos fará grandes de novo. Sem o desvio de recursos, promete este programa de país, seremos uma sociedade mais justa, com dinheiro, enfim, para educação, saúde, transporte. Como sintetizou em vídeo da Transparência Internacional o procurador Dallagnol, uma das personificações do nascente Morismo:

“200 bilhões de reais são desviados pela corrupção anualmente no Brasil. Com este dinheiro nós poderíamos triplicar o investimento federal em saúde ou em educação. Poderíamos multiplicar por cinco tudo o que se investe em segurança pública em nosso país. Poderíamos ter por ano 10 escolas a mais em cada cidade brasileira”.

Tudo o que há anos os políticos prometem e não resolvem. Basta acabar com a corrupção, aponta este novo discurso político que não vem, pelo menos aparentemente, dos partidos tradicionais.

O Brasil já teve muitos movimentos políticos que giravam em torno a pessoas. A líderes. O getulismo, o brizolismo, o chaguismo, o lacerdismo e mais recentemente, o lulismo. Fenômenos que condensaram, em torno a uma figura, um programa ou um conjunto de valores.

Pois estamos agora diante do Morismo. É certamente diferente dos “ismos” citados anteriormente. Até porque sua figura de referência não é uma liderança política explícita. Moro não se coloca exatamente como líder. Símbolo, com certeza. É um juiz. Possivelmente muito mais um estrategista do que um ideólogo.

Que seja um magistrado a canalizar, para muitos, o desejo por “mudança”, é sinal sobretudo do grande vácuo da vida política nacional. Vácuo que se desenha há anos. Que faz com que 7 em cada 10 brasileiros rejeitem os partidos políticos atuais. Vácuo que se expande conforme avança a Lava Jato e o sistema político é demolido a olhos vistos. Parece estar claro que do jeito que está a coisa não fica. Algo de diferente vai ter que acontecer. Mas o quê?

A popularidade de Moro não vem de agora, é claro. Começou a ser gestada em março de 2014 quando foram divulgadas as primeiras ações da Lava Jato. Até ali, o juiz que galvanizava a imaginação de parte da sociedade por um país reto era outro: o ex-ministro do STF Joaquim Barbosa. Agora aposentado, Barbosa foi apontado por pesquisas de opinião como o eleitor mais influente de 2014, atrás apenas de Lula.

Os tempos mudaram. Veio o impeachment. Dilma saiu, o PT minguou e o capital de popularidade de Lula despencou. O Brasil, entretanto, não foi pacificado. Nem a economia melhorou. E vivemos de abalos. O último, a movimentação dos procuradores da Lava Jato peitando diretamente o Congresso Nacional em torno à votação das 10 Medidas Contra a Corrupção. Foi o balão de ensaio de uma crise institucional. Colocou em rota de colizão os Poderes Legislativo e Judiciário, com as ruas e a mídia no meio. Não por coincidência, nas últimas manifestações de domingo – menores do que imaginadas, mas transmitidas ao vivo pela TV – estavam lá, entre muitos indignados, juízes, promotores, procuradores e policiais.

Conforme a ampulheta da crise avança, transparece que o Morismo, para além de uma expressão popular de revolta contra a classe política, tem também um núcleo duro. Núcleo formado pelos agentes da Lava Jato, é certo. Afinal, se trata de não parar as investigações, ao mesmo tempo em que é necessário responder a um sistema político que reage em busca de sobrevivência. Assim, o Morismo vai adquirindo uma dinâmica própria. Algo que o move para além das aparências e da espontaneidade da chamada opinião pública.

Nestes termos, a Lava Jato ganhou uma dimensão mais abrangente. Dá a impressão de aproximar-se do que parece ser seu objetivo estratégico há tempos: a demolição do sistema político tal e qual o conhecemos. Objetivo posto mas não explicitado.

Foi o que aconteceu na Itália dos anos 1990 na Operação Mãos Limpas – a experiência histórica que talvez mais paralelos guarde com o que acontece neste momento no Brasil. Moro, como se sabe, é um admirador da Mãos Limpas, a mega investigação que dizimou os partidos tradicionais italianos, colocou milhares atrás das grades e exilou um ex-primeiro ministro. Que por lá a corrupção não tenha acabado, são outros quinhentos.

A novidade, a meu ver, de domingo último, dia 4, quando dezenas de milhares se manifestaram em diferentes cidades brasileiras – acompanhados por extensa cobertura televisiva – é que a Lava Jato começa a se delinear também como um programa. Vai deixando de ser apenas “anti” corrupção, para ser o reverso disso: o Brasil limpo, o país livre dos ratos. Uma imagem tão límpida e clara como genérica, e que no futuro poderá significar qualquer coisa.

O desfecho da pororoca ninguém sabe. Talvez desaguemos, quem sabe, em eleições diretas em 2017, com novas lideranças que, até aqui, sequer suponhamos quem sejam. A expressar este sentimento generalizado de revolta anti-políticos e que, grosso modo, e por falta de nome melhor, vou apelidando de Morismo. A ver.

 

Yahoo

06/12/2016

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *