Em hospital público, homem aguarda mais de duas semanas para exame e morre antes de ser atendido

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Foram 16 dias entre a internação no Hospital municipal Miguel Couto, na Gávea, Zona Sul do Rio, no dia 10 de abril, e a data agendada para o exame de ressonância magnética. Mas o taxista José Mauro dos Santos, de 61 anos, diagnosticado com tetraparesia motora e lesão medular, morreu antes de ser examinado.

Morador de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e há dez anos rodando num táxi, José Mauro perdeu os movimentos das pernas e do braço esquerdo após ser agredido num assalto na Gávea, enquanto trabalhava. Segundo o filho, Adriano Alves, de 34 anos, o taxista fez o exame de tomografia, que constatou a lesão na medula, mas os médicos disseram que só poderiam seguir com o tratamento — que poderia ou não exigir uma cirurgia — após a ressonância:

— Ele ficou no soro, tomando analgésico e remédio para a pressão alta, sem tratamento específico para a medula — denuncia Adriano.

Por conta própria, sua família conseguiu vaga para a ressonância no Rio Imagem — que não é do Município — no dia 14 de abril, mas, segundo Adriano, seu pai teve um pico de pressão alta durante a transferência numa ambulância básica, sem médicos e equipamentos, oferecida pelo Miguel Couto. O exame não pode ser feito, devido a seu estado de saúde, e, de volta à unidade municipal, ele caiu na fila de espera e a data mais próxima para fazer a ressonância era 7 de maio.

José morreu no dia 22 de abril, com pneumonia que, segundo os médicos informaram ao filho, teria sido agravada pela situação clínica. O laudo com as causas da morte, contudo, só deve ficar pronto no dia 6 de maio.

— Estamos revoltados com o descaso e tristes com a perda. Nós tínhamos que ficar em cima dos médicos para eles atenderem meu pai, parecia que estavamos pedindo um favor — lamenta o Adriano, que pensa em processar o município: — Se ele tivesse dinheiro para levar a um hospital particular, creio que a história seria outra.
A Secretaria municipal de Saúde (SMS) disse que a ressonância é um exame complementar, que detalha o grau da lesão, “mas não alteraria a conduta médica” . O exame, oferecido apenas em unidades federais ou estaduais, só poderia ser feito se o paciente tivesse estabilidade clínica para ser transferido, o que era difícil pois José tinha hipertensão. A SMS informou que a pneumonia é comum em pacientes com tetraplegia que, “nem sempre respondem satisfatoriamente” aos medicamentos.

Leia a nota da secretaria na íntegra:
“Durante seu período de internação no Hospital Municipal Miguel Couto (HMMC), José Mauro dos Santos recebeu todo o cuidado devido para o seu caso. É importante ressaltar que complicações como a pneumonia são muito prevalentes em pacientes com quadro de tetraplegia que, mesmo utilizando a antibioticoterapia indicada, nem sempre respondem satisfatoriamente.
A ressonância magnética é um exame de alta complexidade realizado em unidades estaduais ou federais. Trata-se de um exame complementar que detalharia o grau da lesão evidenciada na tomografia computadorizada realizada no HMMC, mas que não alteraria a conduta médica ou o tratamento dispensados ao paciente. A ressonância só poderia ser feita após o paciente apresentar estabilidade clínica para a transferência, o que, devido a ser portador de hipertensão arterial grave, era mais difícil de ser alcançado. Quando o paciente teve condições clínicas e foi levado à unidade especializada, apresentou pânico dentro do aparelho de ressonância, o que impossibilitou a continuação do exame.
A documentação médica solicitada está sendo providenciada pelo setor responsável. A direção da HMMC está à disposição dos parentes para mais esclarecimentos e, em persistindo dúvidas, se houver solicitação formal da família, poderá abrir sindicância sobre o caso.”

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