Moradores esperam imóveis do MINHA CASA há 3 anos no sertão do PIAUÍ

Terrenos foram marcados na zona rural, mas as casas nunca saíram. Sertanejos dizem que estão ‘perdendo a fé’ devido falta de respostas.

Trabalhador rural espera pela casa que nunca chegou no sertão.
Trabalhador rural espera pela casa que nunca chegou no sertão.

Dois quartos, uma sala, cozinha e banheiro. Essa seria a quantidade de cômodos da casa do trabalhador rural Bernardino Gomes Brandão, 40 anos, e da esposa Maria Aparecida Paes Landim, que esperam há três anos pelo imóvel do Programa Minha Casa, Minha Vida, na localidade Barra do Ancelmo, na zona rural de Dom Inocêncio, no Sertão do Piauí. Mas no lugar marcado para a construção não existe sequer um tijolo.

Assim como eles, dezenas de moradores enfrentam a mesma situação. As casas fazem parte do programa habitacional do governo federal viabilizadas por meio da Associação Quilombola da Comunidade Barra das Queimadas. O contrato com a Caixa Econômica Federal foi assinado em abril de 2013 e somente 27 das 50 unidades habitacionais foram construídas. O valor previsto no contrato era de R$ 1 milhão e 300 mil.

O G1 entrou em contato com a assessoria da Caixa Econômica Federal, mas até publicação da reportagem nenhum retorno foi dado.

O agricultor Bernardino Brandão conta que um profissional esteve no terreno indicado por ele ao lado de uma roça fazendo as medições, mas nunca mais alguém apareceu no local.

O imóvel está no nome da mulher dele e até hoje a família aguarda para realizar o sonho da casa própria, pois atualmente mora com os pais na comunidade.

“A gente ouviu falar na época que iriam construir essas casas e fomos nos informar para conseguir uma, pois eu não tenho casa e moro com os meus pais. É uma coisa que a gente perde até a fé, pois hoje só tem o terreno aqui e ninguém nos dá uma resposta. Acho até que essas casas não sairão mais”, conta ele.

Abel Lopes diz que perdeu a fé e mesmo sim vai manter o nome limpo.

Outro que também espera há três anos pela casa do Minha Casa Minha Vida é o trabalhador rural Abel Lopes de Almeida, 52 anos. Ele conta que já pagou metade das parcelas no valor de R$ 250 cada e nunca viu chegar um tijolo no terreno que escolheu para que a casa fosse erguida na comunidade Lapa. Analfabeto e vivendo do campo, o morador conta que continuará pagando para não sujar o nome, mas já perdeu a fé.

“O sentimento para mim é de tristeza e acho difícil que elas saiam. Entrei [no programa] para ver se Deus me ajudava a ter uma casa, pois já estou ficando velho e preciso de um lugar bom para morar. Eu sou analfabeto, não entendo muito das coisas, mas acho que devia ter uma fiscalização nisso, pois a gente está pagando e é quem está na dor. Já tomei emprestado para pagar essa prestação”, relatou.

Os sertanejos Jurandir de Jesus e a esposa Zelita de Jesus Silva também sonharam em ter uma casa na pequena propriedade que possuem na zona rural de Dom Inocêncio. Atualmente eles têm um casebre de taipa bem ao lado do terreno onde foi marcado para ser construída a unidade habitacional do Minha Casa Minha Vida. A vontade de mudar para uma estrutura melhor está sendo frustrada pela demora na construção.

“Eu pretendo vir morar aqui e criar meus animais para sobreviver. Aqui eu fiz uma roça, trouxe os bichos e mantenho umas coisinhas. Com a construção da casa ficaria tudo mais fácil, mas até agora nada e estamos sem saber o que fazer. É ruim você ter os comprovantes e todos os papéis e não ver nada da casa”, falou ele que vive da venda de espetinhos na zona urbana de Dom Inocêncio.

Procurado pela reportagem do G1, o presidente da Associação Quilombola da Comunidade Barra das Queimadas, Vanderlin Moreira da Silva, disse que o restante das casas não foi construído porque a Caixa Econômica Federal deixou de fazer os repasses. Sem o dinheiro, a construtora responsável não deu continuidade às obras.

Das 50 casas, 27 foram concluídas na zona rural de Dom Inocêncio.

“Nós encaminhamos toda a documentação para a Caixa, mas a liberação do recurso não foi feita. O problema é apenas a liberação, pois não existe outra pendência. A associação não pode fazer casas com recursos próprios, pois se dependesse da gente não estaríamos deixando o pessoal esperando. Já fui em Teresina várias vezes, participei de reuniões, mas não podemos fazer nada sem o repasse”, justificou.

Vanderlim não soube informar quanto já foi liberado para a construção das 27 unidades habitacionais que estão concluídas. Segundo ele, apenas se fosse somar tudo é que poderia dar a informação. O presidente informou que o prazo inicial para entrega das casas era de no máximo dois anos e reconheceu o atraso.

g1.globo.com