MPF apura se mesada de R$ 500 mil para Cabral virou doação ao Solidariedade

‘Tais fatos poderão fundamentar nova denúncia’, diz acusação do Ministério Público. Partido confirma doação, mas diz que não tinha ‘conhecimento da procedência do dinheiro’.

O Ministério Público Federal (MPF) investiga se uma mesada de R$ 500 mil recebida pela quadrilha liderada pelo ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) foi repassada como doação oficial de campanha ao partido Solidariedade, em 2014.

A informação consta na oitava denúncia contra Cabral, que inclui outros seis acusados, por fraudes na Secretaria de Saúde. O Solidariedade confirma a doação oficial, mas diz que não sabia a “procedência do dinheiro” (veja nota na íntegra abaixo). A doação foi feita pela Levfort, do ramo da Saúde, que não se posicionou até a última atualização desta reportagem, diz o G1.

“Tais fatos serão investigados e poderão fundamentar nova denúncia por lavagem de dinheiro”, diz o MPF.

A descoberta foi feita em uma planilha informal, onde seriam feitos os registros de contabilidade da organização criminosa de Cabral. No documento, aparece o termo “doação Solidariedade” ao lado do codinome “Xerife”. O MPF afirma que o codinome “Xerife” é uma referência aos sócios da empresa Sheriff Serviços e Participações, Miguel Iskin e Gustavo Estellita, ambos denunciados.

A empresa era a principal beneficiária de licitações viciadas na área da Saúde, através de um cartel, com contratos superfaturados. A propina era redistribuída para abastacer o esquema de corrupção.

Entre 2013 e 2016, a Sheriff teria feito 31 repasses de mesada que variavam de R$ 400 mil a R$ 500 mil. A planilha era escrita manualmente e foi encontrada na casa do operador Luiz Carlos Bezerra. Em três anos, somente analisando planilhas como esta, o MPF concluiu que foram movimentados R$ 37 milhões de origem ilícita entre 2013 e 2016.

“O pagamento de propina por Gustavo Estellita registrado por Carlos Bezerra se referiu a uma doação oficial de campanha ao Partido Solidariedade, no valor de R$ 500 mil”, diz a denúncia.

“Doação, que na verdade foi decorrente, de fato, da propina devida mensalmente pelo empresário à ORCRIM (organização criminosa) comandada por Sérgio Cabral. A prestação de contas junto à Justiça Eleitoral a seguir prova que o fato se deu em 25/07/2014”.

Nota na íntegra do Solidariedade

“O Solidariedade confirma o recebimento de doação financeira de R$ 500 mil da Levfort Comércio e Tecnolgia Médica de forma legal e garante que cumpriu com todas as cláusulas de prestação de contas exigidas na época em questão, quando eram permitidas as doações de pessoas jurídicas a partidos políticos. A importância foi dividida e utilizada nas campanhas de quatro deputados federais e um estadual. A legenda deixa claro que nenhum se candidatou pelo Rio de Janeiro. O Solidariedade ressalta ainda que não tinha conhecimento da procedência do dinheiro.”

Fraude na Saúde

O ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral e outras seis pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Federal por corrupção passiva e ativa e organização criminosa por irregularidades cometidas na Secretaria Estadual de Saúde, entre 2007 e 2014.

Além do ex-governador, César Romero, Carlos Miranda, Carlos Bezerra, Sérgio Côrtes, Miguel Iskin e Gustavo Estellita são acusados pela Força-tarefa Lava Jato no Rio de Janeiro de pagar ou receber propina para fraudar contratos da área de saúde.

As investigações indicam que Miranda e Bezerra eram os encarregados de distribuir a propina paga pelos empresários, em um total de mais de R$ 16,2 milhões, conforme demostram anotações feitas pela própria organização criminosa.

De acordo com a denúncia do Ministério Público, o esquema, operado por Côrtes e por Romero, ex-secretário e subsecretário da pasta, direcionava as licitações de serviços e equipamentos médicos ao cartel organizado por Miguel Iskin e Gustavo Estellita, sócios nas empresas Oscar Iskin Ltda. e Sheriff Serviços e Participações.

17/05/2017

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