Não vamos recuar, podem fazer a pressão que for, diz major sobre torre blindada e UPP no Alemão

O comandante da UPP Nova Brasília, Leonardo Zuma, diz que lamenta as mortes nos confrontos e explica que ataques de traficantes são para retomar área em que funcionava boca de fumo lucrativa.

A principal via onde a Polícia Militar instalou as bases da UPP Nova Brasília, no Complexo do Alemão, tem apenas 700 metros de extensão. O suficiente para vitimar muitas pessoas na guerra entre traficantes e PMs. No fim de abril, cinco pessoas morreram em seis dias durante confrontos na operação para a implementação de uma torre blindada no Largo do Samba – na sexta-feira (28), a torre de vigilância começou a funcionar.

Era no largo que funcionava uma das boca de fumo mais lucrativas da comunidade, segundo o major Leonardo Zuma, comandante da UPP Nova Brasília desde dezembro de 2014. Em entrevista exclusiva ao G1, o oficial diz que a resistência para não perder o terreno fez criminosos abrirem fogo com o intuito de obrigar a polícia recuar.

“O tráfico viu que está perdendo terreno e já previu os próximos passos, as próximas bases que vamos instalar. Essa guerra que os criminosos estão movendo nisso tudo é o prenúncio da morte deles. Morte deles como instituição ali dentro e, por isso, estão reagindo dessa forma”, explica Zuma.

Desde que iniciou a obra para a construção da torre blindada, em fevereiro, a equipe de Zuma foi alvejada diariamente. A solução foi desistir da obra e mandar colocar uma já pronta que estava sem utilização na Linha Amarela. Isso minimizou os prejuízos, não somente os financeiros, mas também de vidas.

“A ordem dos traficantes era: ‘Chegou o pedreiro, manda bala nele!’. Tive um PM baleado lá dentro do Largo do Samba e mais três agentes do Bope feridos no dia da instalação da torre”, conta o comandante.

Zuma afirma que não previu que a resistência seria tão sangrenta.

“Comecei a perceber que aquele ponto era realmente muito importante para o tráfico de drogas. No início, os policiais ficaram receosos, me pediam pra não instalar essa base, mas depois perceberam que essa era uma jogada dos traficantes pra gente voltar atrás. Eles estão numa ação desesperada, que não tem a mínima chance de dar certo.”

Largo do Samba e o lucro da boca de fumo

O local é estratégico tanto para polícia quanto para os traficantes. O Largo do Samba fica posicionado na metade de uma das vias principais da favela Nova Brasília, a Rua Sete de Setembro. Tem duas entradas e mais acessos a três becos que dão em distintas regiões na comunidade.

Qualquer morador chega rapidamente ali. Mototaxistas também podem subir com facilidade pela Estrada do Itararé. O ponto comercial de venda de entorpecentes, que ali funcionava, era favorável geograficamente para os clientes. Agora, a polícia acredita que comandará a região, com visão privilegiada da favela.

“Pra gente ocupar o Largo do Samba eu levava seis horas, no meio da troca de tiros. Hoje, eu entro em 30 segundos porque a torre está lá dentro. Para entrar ali, tivemos que ir pulando de laje em laje para que os bandidos não vissem.”

Atualmente, 340 policiais trabalham para garantir a segurança dentro da comunidade.

“Há pouco tempo, tinham trilhos fincados no chão e muros de concreto, para evitar o tráfego das viaturas. Limpamos toda a área. Caso os policiais sejam atacados, temos condições de entrar ali para socorrê-los. Existe a possibilidade de atacarem a torre? Existe. Já possibilidade de sucesso eu acho que é nula.”

Para o oficial, a localidade é triplamente estratégica: “Primeiro, porque funcionava uma grande boca de fumo lucrativa, depois, porque os bandidos conseguiam atacar a polícia em dois pontos de um único local de disparos, outra porque dali do largo eles protegem três acessos da comunidade”.

Estrutura blindada

Visão 360°, mais de dez pontos de disparos, dois andares, ar-condicionado, banheiro, além de paredes e janelas blindadas. É dentro da estrutura de seis metros de altura que os policiais da UPP Nova Brasília vão monitorar toda a região.

“Acho uma visão equivocada quando dizem que a torre vai contra o conceito da UPP. Na verdade, a torre está permitindo o acesso do policiamento ali dentro, que não acontecia antes. Tiramos uma boca de fumo da porta dos moradores, tiramos um monte de pessoas fortemente armadas circulando ali. Não vejo pelo ponto de que a torre está isolando a polícia dos moradores, muito pelo contrário. Agora, vão poder levar suas vidas de forma pacífica, voltar a fazer festas.”

Holofotes e câmeras de segurança estão sendo espalhados no entorno da torre para auxiliar na vigilância. Existe também a possibilidade de novas torres blindadas serem implementadas em outras áreas da comunidade. Já existem quatro bases no local: base da UPP Nova Brasília, base blindada no Largo da Vivi, torre blindada no Largo do Samba e base blindada na Alvorada.

“A tomada do terreno vai ser progressiva. O Alemão vai ser reocupado pelos policiais em segurança, permitindo patrulhamento a pé e sem risco para a comunidade, e sem tiroteios a todo momento, impedindo que os bandidos trafeguem pelas principais vias.”

Retirada da torre e saída da UPP do Alemão

Apesar da pressão contra a torre e para que a UPP seja retirada da Nova Brasília, não existe a mínima possibilidade de isso acontecer, segundo o oficial. Semanalmente, comandantes e a cúpula da Polícia Militar se reúnem para discutir sobre um processo de restruturação das unidades pacificadoras na cidade.

“Não vamos recuar, podem fazer a pressão que for. Isso só está mostrando que estamos indo pelo caminho certo, porque se estivesse errado, não estaria dando problema nenhum. Pressão popular pra UPP sair dali ainda não vi nenhuma. O que vejo é um grupo com seus interesses próprios. Moradores de bem não atiram na polícia, não depredam ônibus, não invadem UPAs.”

Na visão de Zuma, “recuar seria um regresso no processo de pacificação e significaria a volta do quartel general do tráfico no local”.

“Com essas pseudo-manifestações, estão querendo causar instabilidade que convença alguma autoridade de que é melhor retirar a UPP dali. Eu acho isso uma burrice. As autoridades podem estar sendo levadas a enxergar o problema de forma unilateral e acabam prestando um desserviço para a comunidade de bem, essa é a verdade.”

Balanço desfavorável x sucesso a longo prazo

Foram cinco mortes de moradores e quatro policiais baleados no Alemão desde que as obras para a instalação das bases começaram. Um custo que abala, mas que Zuma assume como inerente ao cargo que ocupa.

“Já teve dia em que não consegui dormir. Fico pensando qual o tamanho da minha responsabilidade nisso tudo. E se meu policial baleado morresse? Mas eu sou um comandante, penso de forma estratégica. Sei que aquilo está tendo um custo para mim, custo de vidas, mas sei que vai trazer pacificação para o local.”

O major, no entanto, diz que ainda acredita no êxito de sua UPP.

“Li um texto que diz que o período de maior treva durante a noite é exatamente o que precede a alvorada. Então acredito que esteja passando por essa madrugada sombria, mas estou buscando a alvorada.”

Zuma também lamenta pelos familiares dos jovens mortos durante as trocas de tiro.

“Meu coração fica pesado, mas em nenhum momento vou recuar daquela que é a minha missão institucional e como ser humano. Minha estratégica junto com a minha equipe pode dar errado? Pode. Mas a gente vai tentar outra. Se depender de mim, não vou desistir nunca, vou cumprir minha missão, custe o que custar”, avalia.

O objetivo, daqui para frente, é estreitar a comunicação com os moradores de Nova Brasília e fazer com que a sociedade se posicione na discussão.

“Nesse momento crítico, a comunidade tem que se posicionar a favor da polícia. No fim das contas, os moradores podem ir na corregedoria nos denunciar, a promotoria de justiça pode nos controlar, a defensoria pública pode defender os interesses de quem se sente violado. Mas quem vai controlar o tráfico de drogas? Aonde reclama? Tem um pensador que diz que quando os sinos dobram, eles se dobram também por você. Quando alguém morre, você também está morrendo um pouco. Então chegou a hora da sociedade se posicionar.”

Crivella promete retomar projetos

O prefeito Marcelo Crivella esteve nesta segunda-feira (1º) na Vila Olímpica Carlos Castilho, no Complexo do Alemão, em um encontro com cerca de 300 moradores e líderes comunitários. Segundo a assessoria de imprensa, ele foi ouvir ideias sobre futuros projetos para a região e disse que elegeu como prioridade que a prefeitura retome os projetos sociais.

O prefeito disse ainda que irá retornar ao Alemão, no próximo dia 20, para uma nova reunião, para apresentar o que será feito pela prefeitura.

“Vamos verificar o que é gasto com cada um deles [projetos] e qual o alcance que tem. No próximo dia 20, estaremos de volta aqui para mostrar, dentro das possibilidades econômicas da Prefeitura, o que nós poderemos fazer.

02/05/2017

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *