O Lula cordial e a culpa da(s lojas) Marisa

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O principal evento da semana passada não foi o depoimento de Lula a Moro. Foi a delação de João Santana e Mônica Moura, que expõe detalhes do funcionamento das comunicações secretas entre o casal de marqueteiros e Dilma. E que, de quebra, demonstra que uma das paranoias mais engraçadas da direita, a respeito do “Foro de São Paulo”, não era tão descabida assim.

Segundo o Yahoo, o casal entregou o empenho do PT em interferir em eleições em outros países, usando inclusive dinheiro de propina. (Isso muito mais por conta de pressão de Lula do que de Dilma, que não tinha esse foco internacional. Pelo contrário, deu um certo trabalho pra Lula manter azeitadas relações político-comerciais com países como Cuba e Venezuela, nas quais Dilma dava umas sabotadas – mas isso não vai poder ser muito usado a favor dela).

Como disse Moro, o depoimento de Lula era um mero ato do processo; se não chegou a ser uma formalidade, também pouco pesará nos resultados. Claro que a grande imprensa, que adora esses momentos emocionais, fez questão de pintar a coisa como um embate de super-heróis. Não que o encontro não tenha um simbolismo, mas creio que a imprensa teria um papel informativo mais digno ao enfatizar o caráter quase burocrático da coisa (basicamente um encontro de dois chatos, um cutucando e o outro negaceando – o que vêm a ser precisamente o papel dos dois no episódio, sem desdouro).

O corolário disso são os relatos forçados – tanto para um lado quanto para o outro – que, insisto, pouco interferirão nos resultados (esta matéria dá uma perspectiva realista da coisa). E na percepção pública também: não creio que muitas convicções já formadas, de culpa ou de inocência, tenham se revertido.

Na falta de um assunto real, a grande discussão posterior ao “embate” acabou se valendo de e se concentrando na estratégia de Lula de empurrar algumas responsabilidades para a mulher, a falecida Marisa Letícia, falando da insistência em continuar negociando com a empreiteira OAS um apartamento que Lula já não quereria. E esse ponto carrega uma ironia: talvez seja verdade o que Lula diz – mas também não resolve em nada o seu problema.

Assisti a várias horas da gravação do depoimento e o que tenho a dizer é o que já disse: basicamente é um treco muito chato. Para quem conhece a personalidade da Dona Marisa, não seria realmente impossível ela fazer coisas à revelia de Lula. Como ter se fixado em “fechar negócio” em um apartamento que Lula achava inconveniente (fosse por razões práticas, os “defeitos” dele, fosse por razões políticas mesmo).

Mas aí restam duas questões interessantes. A primeira: houve sim, um contexto de negociação com a OAS. E esse contexto era necessariamente promíscuo. Se o “negócio” não chegou a se realizar, houve sem a menor dúvida uma situação em que um imóvel era oferecido pessoalmente por um dono de empreiteira a um ex-presidente, e reformado para esses fins, sem que houvesse explicação clara de como ele seria pago (as cotas da família Lula nesse edifício não pagam nem de longe o valor desse apartamento em particular).

Ou seja, tanto faz se Lula fechou negócio ou não. Se Marisa traficava influência, era a influência de Lula que ela traficava. O problema é mais a do empenho de Léo Pinheiro, em oferecê-lo e em facilitá-lo. A explicação do próprio Léo é a de que o apartamento seria descontado de um “fundo de propina” (o mesmo que pagou o armazenamento de bens presidenciais na Granero – como se fossem bens da empresa). Diz ainda Léo que herdou a construção da Bancoop – a falida cooperativa dos bancários – já com a recomendação de João Vaccari, ex-presidente da cooperativa e tesoureiro do PT, sobre a reserva do tal apartamento. Vaccari também tem um no prédio.

Mas a outra questão, a que mais me interessa, é a do tom que Lula usou no depoimento em alguns momentos, ao tratar desse tópico. Um tom que, no depoimento dado em São Paulo, quando da condução coercitiva em março do ano passado, chegou a funcionar, envolvendo o delegado que o interrogou.

O truque de Lula é uma variante do “homem cordial”, a polidez fingida do opressor, segundo a definição clássica de Sergio Buarque de Holanda. Lula, que veio das classes humildes, força e finge intimidade (apesar do poder que tem, ou teve) para criar empatia. Com o monocórdico Moro, não funcionou. Duas frases usadas por Lula chegam a ser engraçadas. Uma é “o sr. sabe que todo e qualquer vendedor que quer vender de qualquer jeito, não sei se o doutor já procurou alguma casa pra comprar”, que tenta transformar o magnata em mero corretor, e dos pentelhos.

A outra frase é: “não sei o senhor tem mulher, mas nem sempre ela pergunta para a gente (sobre) o que vai fazer”. O que nos leva de volta a Marisa. Boa ou não, sincera ou não, a estratégia abriu um flanco para os detratores de Lula afirmarem que ele jogou a culpa na falecida – o que não deixa de trazer uma certa verdade.

De novo, as reclamações de petistas e simpatizantes se concentraram na capa da revista Veja, que escancarou a manchete A Morte Dupla – Em seu depoimento ao juiz Moro, Lula atribui as decisões sobre o tríplex no Guarujá à ex-primeira-dama, falecida há três meses. De fato, é uma capa apelativa (ainda que, como eu disse, tenha sido Lula que abriu esse flanco meio gratuitamente – pois é de menor importância para o inquérito em si). A capa pode render um processo, para mais barulho das torcidas.

Mas um outro objeto de reclamação (e ameaça de boicote dos simpatizantes; na foto, uma manifestação em São Bernardo) foi um anúncio das lojas Marisa, que diz Se sua mãe ficar sem presente, a culpa não é da Marisa. Esse sim me representa. Explico por que. E não é por ser um “ataque contra Lula”, ou um desrespeito às mulheres bem no dia das mães, como quiseram descrever alguns petistas.

Um mapeamento interessante das redes sociais, feito pela Diretoria de Análises de Políticas Públicas da FGV, traz os seguintes números, após o depoimento: 20,7 % de manifestações incisivas contra Lula; 19,2% de manifestações incisivas a favor. Poderia ser chamado de um empate. Mas o dado fundamental é o seguinte: 32,3% se manifestaram sem aderir claramente a um lado nem ao outro. Parecem estar cansados da polarização.

Um dos elementos mais incômodos dela é a solenidade dos “polarizados”, tanto os contra quanto os a favor. A graça do anúncio da Marisa não é a de ser a favor de um dos lados, mas de tirar sarro do assunto em si, desinflá-lo dessa autoimportância martirizante. Importante mesmo foi a delação dos marqueteiros que, para variar, a militância tentou inutilmente desqualificar – e a de Palocci, que vem aí (será o primeiro dirigente petista a escancarar, e promete finalmente jogar os bancos nas investigações – mas esse já é outro assunto).

De resto, foi uma manobra bem-humorada da loja contra os memes que já estavam circulando, com seu logo e a frase “a culpa é da Marisa”. A Marisa já tinha sido metida na treta simbólica; só resolveu tirar uma casquinha. Terá sido não a segunda, mas a terceira morte de Marisa: a dela como assunto válido. Chega de chantagem emocional.

17.05.2017

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