Refugiados sírios em SP questionam eficácia de ataque dos EUA: Não muda nada para o povo

Imigrantes afirmam que guerra só terminaria com mudança de poder e reconstrução do país; ‘não consigo entender o que estão fazendo’, diz estudante de mecânica.

Refugiados sírios que vivem em São Paulo afirmam que não entendem o motivo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de bombardear uma base aérea do governo sírio e questionam a eficácia e a necessidade da medida. Homens e mulheres sírios que migraram para o Brasil desde 2014 dizem entender que o ataque mais prejudica do que ajuda o povo sírio e que os EUA, se quisessem mesmo ajudar a Síria, deveriam atuar em prol da retirada do presidente Bashar al-Assad do poder e colocar pela união e reconstrução do país árabe.

Os Estados Unidos lançaram 59 mísseis Tomahawk contra uma base aérea na Síria na noite desta quinta (6), em resposta a um suposto ataque químico que teria matado mais de 80 pessoas nesta semana. O balanço de mortos no bombardeio ainda está indefinido, mas as agências internacionais falam entre quatro e nove vítimas.

O ataque é a primeira ação direta dos EUA contra o presidente sírio, Bashar Al-Assad. Trata-se de uma mudança significativa na ação americana na região, pois até então os EUA apenas vinham atacando o Estado Islâmico. O presidente russo, Vladimir Putin, disse que o bombardeio dos EUA a uma base aérea do governo sírio é uma “agressão contra um Estado soberano”, baseado em “pretextos inventados”.

Professor e palestrante sobre a cultura árabe, Abdulbaset Jarour deixou a cidade em que nasceu, na região de Aleppo, na Síria, em fevereiro de 2014, deixando para trás a irmã de 12 anos e a mãe e refugiando-se na capital paulista.

Segundo Jarour, a família vivia em um local que está há uma hora de carro de onde a Síria usou armas químicas, que deixou 80 mortos. Ele não tem notícias dos parentes há uma semana, quando conseguiu contato com um vizinho que o tranquilizou, dizendo que elas estavam morando em uma escola e passavam bem.

“A Síria não precisa de um ataque de 50 mísseis dos Estados Unidos. Nesta cidade é onde tem produtos químicos para as fábricas. Os EUA, se querem ajudar mesmo, deveriam tirar o presidente do comando. Há muitas outras unidades do governo sírio com armas químicas e que ainda podem ser usadas, por que os EUA não atacam lá? Para mim, foi só mais um ato para mostrar para o mundo do que algo que tem efeito na vida do povo”, acredita Jarour.

Abdulbaset Jarour acredita que interesses financeiros e religiosos estão no centro da disputa pelo controle do país destruído. “A guerra vai continuar e não adiantou nada este ataque. Não entendo como eles querem fazer a diferença para o povo sírio se são reuniões e reuniões que discutem e nada muda. Se os EUA querem tirar o Assad do poder, tiram em 24 horas, de forma política. Isso é uma desculpa só para mostrar para o mundo inteiro. O governo sírio mata milhões de sírios há anos e ninguém está fazendo nada”, afirma o professor.

Professor de inglês e árabe e fazendo faculdade de engenharia mecânica, Mohamad Hakam, de 25 anos, migrou para São Paulo em 2015 sozinho e ainda tem familiares na síria. Hakam diz que não vê motivos para o ataque dos Estados Unidos da forma como foi realizado e que só a saída do presidente Assad, com um plano de reconstrução política e social do país, assumindo alguém com respaldo da população, poderia dar fim ao conflito.

“Eu não consigo entender o que estão fazendo, o por que deste ataque dos Estados Unidos, não tem um motivo. Há 6 anos, quando a guerra começou, a solução era só tirar o Assad do controle do país e ninguém fez nada. Agora, o contexto é mais complexo, o país está com a infraestrutura toda destruída, os terroristas avançam. Se tirar o poder das mãos dele, tem que ter alguém de referência para assumir. O que interessa agora é, o que mudou que resolveram atacar?”, questionou Hakam.

“Ninguém sabe quem está lutando contra quem lá. Agora, não tem como tirar um presidente e colocar outro, é muito dinheiro e interesse envolvido. A Síria é uma prefeitura da Rússia e pode virar uma subprefeitura dos Estados Unidos. É muito importante tirar o Assad do poder, mas não é só isso, tem que colocar alguém patriota no lugar”, aponta ele.

Como ele, a cozinheira Muna Darweesh também entende que a intervenção dos EUA desta forma só atrapalha ainda mais a população. Muna mora em São Paulo desde 2013, quando migrou com o marido e quatro filhos (três homens e uma mulher). Hoje, tem seu próprio negócio e sustentar a família fazendo comidas árabes para eventos e restaurantes.

“Eu achei ruim a ação, claro, é um ataque que não funciona para nada, foi só para mostrar forçar. Eu, como mulher síria, entendo que não tem benefício algum. Quando um estrangeiro intervém em um outro país que não é o seu, isso é ruim. É tudo circunstancial e eles não conseguem explicar o motivo direito e a guerra ainda vai continuar por muitos anos, só a população lá que sofre”, afirma ela.

Razan Suliman, de 27 anos, que também é cozinheira de quitutes árabes, “não gostou” do ataque com mísseis ordenado por Donald Trump. Ela migrou como refugiada para São Paulo com o marido, grávida do primeiro filho, em 2014. “Eu vi as notícias e acho que isso não muda nada, e não vai ajudar. A guerra vai continuar. Os EUA precisam e podem resolver este problema se quiserem. A cada dia morrem muitas pessoas e não fazem nada de concreto para que isso mude”, diz.

Apoio ao ataque

Já o auxiliar de informática Najd Soufan, de 30 anos, disse que, apesar de “ninguém ter gostado do que o Trump fez, eu gostei. Eu estou apoiando o ataque dos EUA à Síria”. Soufan veio para São Paulo em 2013 com a mãe e o pai ainda mora na Síria.

“Alguém precisa mostrar para o mundo que o governo sírio cruzou a linha vermelha, que foi o uso de armas químicas. Eles mataram mulheres e crianças e pedem desculpas e tudo fica por isso há anos. Trump depois do ataque ainda apoiou sanções econômicas à Síria, que foram vetadas pela Rússia. O ataque dos EUA foi a uma base militar, e que tinha armas químicas. É preciso uma ação de coragem como esta, sim, para que parem de matar na Síria”, defende o jovem.

g1

07/04/2017

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